Da Redação – Fotos do acervo da família
No começo da tarde do dia 23 de junho de 1990, enquanto todo o Brasil se preparava para assistir o jogo Brasil e Argentina, em plena Copa do Mundo que estava sendo disputada na Itália; Nova Xavantina, Campinápolis e o Vale do Araguaia foram pegos de surpresa com uma trágica notícia: o então prefeito de Campinápolis, Leonildo José de Carvalho, o Nego Carrim, batera violentamente com seu carro no corrimão da ponte de concreto próxima à Fazenda Viena, vindo de Barra do Garças.
Levado às pressas para o não menos lendário Hospítal Nova Brasília -hoje Hospital e Maternidade Amo a Vida; e atendido pelo amigo então prefeito de Nova Xavantina, Dr. Oswaldo Toyama, e pelo proprietário, Dr. Aíton Vieira de Rezende, Nego foi imediatamente transferido de avião para Goiânia, devido ao gravíssimo quadro de hemorragia interna no tórax, oriunda do choque do peito no volante, que lhe quebrou os ossos,. e não resistiu, vindo à óbito logo após dar entrada no hospital de Goiânia.
Seu velório e enterro foi um dos mais impressionantes que já se viu no Vale do Araguaia. O corpo teve que ser velado nas duas principais Igrejas do município, Católica e Evangélica, e na Câmara Municipal, com o cortejo acompanhado por uma multidão inconsolável e incrédula, não acreditando no que estava acontecendo, um fenômeno só comparável aos enterros dos grandes líderes religiosos do Oriente, como o Aiatolá Khomeini e outros

NEGO CARRIM
Carismático e popular, Leonildo José de Carvalho herdou o apelido de seu pai, o Sr. Carrim, rico fazendeiro goiano,, daí ser chamado Nego do Carrim, filho do Sr. Carrim, ou simplesmente Nego Carrim, o que não deixa de ser uma aparente contradição para a sua tez clara e os olhos profundamente azuis.
Foi na fazenda de seu pai que Nego começou sua carreira política, como gostava de contar. Alí resolveu fazer uma reforma agrária, doando partes de fazenda para os empregados, loteando a propriedade, segundo ele, para fazer com que os empregados também ganhassem dinheiro com as terras.
Pioneiro de Campinápolis, antigo Jatobazinho, distrito de Nova Xavantina, foi cabo eleitoral fortíssimo do amigo José Frederico Fernandes (in memorian) na vitoriosa campanha de 1982, tendo concorrido nas eleições daquele ano para vereador, e foi um dos candidatos mais votados, porém a grande maioria dos votos não foram computados, pois registrou apenas o seu nome -Leonildo José de Carvalho, e não Nego Carrim, em quem o povo votou maciçamente; e perdeu a eleição.
Resiliente, voltou à disputa em 1988, com o distrito já emancipado, concorrendo ao cargo de prefeito, e venceu por cinco votos de diferença o adversário Bolivar Simões, votação que foi recontada duas vezes pela Justiça Eleitoral e confirmada a vitória.

Na foto, Nego com a esposa Joana e a filha Cláudia. Completam a família os filhos Louremberg e Leonel
REFERÊNCIA
O curto mandato de menos de 18 meses em que Nego Carrim esteve à frente da Prefeitura de Campinápolis, foi suficiente para implantar no município as obras, projetos e visão de futuro que se tornariam referencia e roteiro para várias administrações de prefeitos que o sucederam, como a criação do distrito de São José do Couto, construção de praças, implantação do sistema de abastecimento de água, luz, telefone, antena retransmissora de TV, fortalecimento da Educação, Esporte, Saúde…
E consolidou a sua incontestável liderança no Vale do Araguaia. Era presença obrigatória nas reuniões e articulações políticas regionais de deputados e senadores, que o consultavam pessoalmente antes de tomar qualquer decisão.
Fiel aos amigos e correligionários, ajudou financeiramente o amigo José Frederico Fernandes em sua campanha para deputado estadual em 1990.
Frederico ficou na terceira suplência, mas graças à articulação com o então governador Jaime Campos, assumiu a cadeira por dois anos, tornando-se o primeiro representante do Vale do Araguaia na Assembleia Legislativa de MT.


HISTÓRIAS
Sábio e perspicaz, conselheiro, espécie de “guia espiritual” dos companheiros, representante da mais pura cultura goiana, Nego recebia todos os dias em sua casa os amigos, aos quais dava conselhos, quando era preciso, muitos dos quais este que vos fala (escreve), presenciou, por ter sido primeiramente seu Assessor de Imprensa e depois Secretário de Finanças.

Aos que estavam, por exemplo, com problemas com a esposa, querendo se separar, Nego advertia: “Nunca, de jeito nenhum. Mulher agente tem que arranjar mais, não perder a que tem”.
Outra dele: certa vez sua esposa Joana, cansada das presepadas do marido, foi morar com a Mãe. Os companheiros souberam e ficaram preocupados, correram para sua casa: “E agora Nego, como será?”. E ele: “Calma, vai dar tudo certo, faço uma aposta com vocês, em 30 dias ela volta”.
O tempo foi passando e nada da Joana voltar. Quando ia se esgotar o prazo, ele convocou os amigos e levou-os para a churrascaria, almoçar, sem ninguém saber porquê. Em dado momento, explicou: “O motivo de ter chamado vocês é que eu quero uma prorrogação no prazo, mais 30 dias”. Todos morreram de rir e o prazo foi concedido. Em menos de trinta dias Joana voltou e a vida seguiu normalmente.
E mais uma: era um paradão terrível em Campinápolis, não acontecia nada, não tinha dinheiro, fofóca, nada, só aquele calorão escaldante e o paradão paradão mesmo.
Então Nego mandou abrir um buraco enorme no fundo do seu quintal, e espalhou que era para construir uma piscina. Como assim, uma piscina, neste paradão??.Todos voltaram a falar dele e o assunto virou manchete na cidade. Claro que a piscina nunca saiu, era só estratégia de marketing.
ESTADISTA
As fotos desta matéria, gentilmente cedidas ao site pela família de Nego Carrim, através de sua filha Cláudia Carvalho, foram extraídas da reportagem realizada pelo saudoso e pioneiro jornalista do Vale do Araguaia, Generoso Rodrigues, que o considerava um estadista.
A matéria foi publicada em sua revista “MATO GROSSO AGORA”, por ocasião da cobertura do aniversário de Campinápolis, em 13 de maio de 1990, o quarto aniversário do município então recém emancipado.
Fica registrado nossa homenagem póstuma ao grande e saudoso jornalista, bravo e guerreiro empreendedor do jornalismo no Vale do Araguaia, ao lado de outros dois pioneiros da comunicação em Barra do Garças e região: Oliveira Santos e Domingos D’Eri, também já falecidos.
Boa semana à todos!





